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julho 27, 2005

Amo-te filho

Tu nunca pedes desculpa. Quando o fazes sinto-te pressionado. Ou reflectes muito sobre o tema, ou escutas a tua mãe. Sei que és sincero quando dás a mão à palmatória mas sei quanto isso te custa. A mim não me custa pedir desculpa. Talvez seja por ser cota e a vida me tenha ensinado algumas coisas para além dos vinte anos. Dos vinte anos que tu tens e dos quais, malgré tout, que é como quem diz apesar da pouca vivência não poucas vezes me deixam saudade. Hoje, quando vieres ler o meu blog tens aqui um formal pedido de desculpas, mas também um pedido para que entendas os meus stresses. Não querido, não é uma desculpa minha. A situação em que me encontro causa-me alguns desequilíbrios. Às vezes tenho a frieza para viver com as minhas preocupações, as minhas angústias, até os meus medos. Noutras ocasiões o descontrolo torna-me menos racional. Ontem, percebi que apenas querias ter feed-back do teu esforço, da tua preocupação comigo, das tuas diligências. Pronto, os telefonemas estão feitos. Não me leves a mal de tornar público um pedido de desculpas que podia (se calhar até devia) ser privado. Mas eu precisava de desabafar e de dizer a toda a gente quanto eu te amo.

Publicado por Alves Fernandes às 03:38 PM | Comentários (3)

julho 23, 2005

Orgia Vocabular (talvez TM)

Já confessei aqui que sou um apaixonado pelo blog da Encandescente. Ontem no Eroticidades, Orgia Vocabular é mais um dos momentos altos de tamanho engenho.
Mas, como lá não se comenta, comento aqui. E deixo-lhe “um grande bem haja a vossa excelência” desta forma:


F. G. Lorca diria à filha daquela que também gosta…

A las cinco de la tarde
A las cinco en punto de la tarde
Ardiendo en tu habitación
Ya te aburrías de me esperar.
Pero el bravísimo toro
A las cinco de la tarde
Estaba comiendo tu madre
A las cinco en punto de la tarde
Que es mucho mejor que tu
Mientras las dos pudran marchar,
A las cinco de la tarde (mañana, vale?)


Cesário bucólico, pastoril…

Vens pelos campos, de saia rodada
Por debaixo tuas vestes cheiram a capim
E no feno transformando amor em pinocada
Escutando o mugir da vaca, ou coisa assim.

Juro-te amor e dou-te uma romã
Comes cada bago como se secasse logo,
Enquanto distraído penso em tua irmã
És tu bombeira a apagar meu fogo.


E Albino Forjaz Sampaio contundente…

O meu amor é uma puta.
E os vossos amores também são putas.
Ou então paneleiros.
Não negues tu que também és uma puta.
É por isso que eu te amo em te odiar, grande vaca.

Publicado por Alves Fernandes às 11:19 AM | Comentários (1)

julho 21, 2005

Retiro

Só, ou quase. Quando a cabeça pira o melhor é pirar-me. Por companhia apenas uma cadela vadia que aparece quando chego e um gato preto escanzelado que de mim não foge porque sabe que come. Só, com eles como interlocutores, uma cama, muitos livros do Tintim. Palavras faladas, escassas. Palavras lidas, as de Hergé. Palavras escritas, nenhumas. Os sonos e os sonhos em dia. O acordar a sonhar com o regresso, o regresso ao mundo. Parece que há novidades. Vou-me inteirar.

Publicado por Alves Fernandes às 09:56 AM | Comentários (1)

julho 13, 2005

Pode a Matemática ser um cinto de segurança?

Há arvorados a fazedores de opinião que por tão pouca opinião fazerem não me merecem uma importância superlativa. Incluo nestes os colunistas dos semanários que, se não forem “puxados” pelas SICs e pelas TVIs, poucos sabem os que eles dizem (escrevem). O Expresso, por exemplo, custa 3€, digamos que 12 a 15€ por mês, uma quantia não ao dispor da grande maioria da população que, a atender pelas estatísticas de vendas prefere comprar A Bola, o Público, o DN, o JN ou o CM. As crónicas do João Pereira Coutinho não influenciam “ninguém” e só se preocupam com elas uma dúzia e meia de leitores, a saber: meia dúzia de indefectíveis, meia dúzia de contras e meia dúzia de curiosos. Não só, mas também por isso estou-me nas tintas que ele passe 2 semanas (quiçá volte ao tema na próxima edição) a defender e argumentar o não uso de cintos de segurança nos automóveis. E se ele se estampar e bater com a carola nos vidros o problema é dele. Excepto se eu levar com os estilhaços.

PS. Preocupantes são os 70% de chumbos a Matemática nos exames do 9º ano. Ou talvez não. Talvez esses 70% estejam mais vocacionados para as letras e venham a escrever crónicas como as do João Pereira Coutinho.

Publicado por Alves Fernandes às 11:14 AM | Comentários (6)

julho 11, 2005

Algures ao final da tarde

Acabaram-se as noites de farra, o snooker no Central, a Super-Bock gelada, os Marlboros sem conta, a mochila às costas, o rafting e a escalada (para vingar os Marlboros, dizia ele), as noites dormidas até ao meio-dia do dia seguinte. Ele agora preocupava-se mais com as fraldas, as noites não dormidas, as olheiras indisfarçáveis quando no espelho coloca a gravata, uma revista ou um jornal até que a cabeça caia no sofá antes do Telejornal. Às vezes uma nostalgia percorre-lhe o pensamento, as histórias do Zé Grilo que tentava convencê-los da sua veracidade, os jogos de futebol de praia ao fim da tarde de Sábado, Vilar de Mouros onde ninguém sabia, naquele amontoado, quais eram as suas próprias pernas, o dia que andou à porrada numa área de serviço “arrebentada” por uma excursão de uns adeptos enfurecidos. Mas no fim, quando o via gatinhar direito a ele, tinha valido a pena. Ele era o seu bem mais precioso. E a mãe uma excelente cozinheira. E amava-a mais ainda do que aos crepes Suzete com que lhe adoçava o final do dia. E amavam, amavam, amavam.

Publicado por Alves Fernandes às 01:00 PM | Comentários (4)

julho 07, 2005

Hoje não deu jeito

Nem todas as músicas que escuto nos blogs que leio fazem o meu género. Reconheço, no entanto, que a maioria são trechos bonitos para acompanhar uma leitura. Se excluirmos o facto da abertura do blog se tornar um pouco mais lenta, situação quase ultrapassada nas ligações ADSL ou Cabo (com excepção da NetCabo que é uma verdadeira merda), não me faz qualquer diferença ler os blogs e ouvir as músicas de fundo. Eu próprio já tive e nada leva a crer que não voltarei a ter música nos meus blogs. Mas hoje, confesso-vos, não me deu jeitinho nenhum. É que devido aos acontecimentos em Londres, tenho estado com o PC sintonizado na TSF on-line… enquanto leio blogs. E a música dos blogs fica “por cima” das notícias. O que me fez entrar e sair. Prometo-vos blogs musicais que voltarei mais tarde para vos ler. Não façam beicinho.

Publicado por Alves Fernandes às 01:00 PM | Comentários (10)

julho 05, 2005

Velhos... como os trapos.

O baralho das cartas corre de mão em mão, cartas coçadas do manuseio, sebosas da arrastar nas mesas, nódoas de algum pingo de vinho caído sobre a fórmica da cobertura. Ele ajeita o boné que lhe cobre a quase calva cabeça onde, brancos como se fossem fios de neve escorrendo, alguns pelos teimam em resistir. Coça a própria cabeça numa longa pausa que não lhe era habitual. O parceiro seguinte desespera com a demora mas daqui a pouco será a sua vez de ajeitar o chapéu preto de abas curtas. Joga uma bisca de copas, temeroso. Só o Ás lhe poderá levar a vasa, mas pelas suas contas já terá ficado para trás. A não ser que a memória o tenha atraiçoado. A memória atraiçoa-o por vezes, mesmo quando senta no colo o neto e lhe conta uma história antiga. Por vezes confunde o Lobo Mau com o Pinóquio. Não, não, avô o Lobo Mau não é desta estória. O Ás de copas também não seria daquela história. Sorri quando a vitória também lhe sorri. Depois bebe um copo de vinho, limpa com as costas das mãos os cantos da boca. Cambaleia um pouco a caminho de casa e se não fosse a memória saberia que teria sermão ao trespassar a ombreira da porta. Mas ela, diz-lhe de repente a memória, ela já não existe. Talvez esteja no Céu a ralhar com ele.

Publicado por Alves Fernandes às 12:32 PM | Comentários (0)

julho 04, 2005

Águas que correram

Subiu ao eucalipto como tantas vezes o fizera em criança. A malta, como ele sempre se refere quando relembra a criancice e a pré-adolescência, não tinha muito com que brincar naqueles tempos. Ou, como ele prefere mesmo dizer, inventavam as suas próprias brincadeiras. Jogos de computadores são coisas que ele compra para os netos. Subiam às árvores, iam aos ninhos, pregavam partidas aos pastores e metiam-se com as raparigas, à noite, nos bailaricos da aldeia. Ou roubavam uma fartura, nas festas, e corriam a reparti-la no adro da igreja. Lembrava-se disto enquanto esforçadamente subia. E lembrava-se também que foi sentado à sombra de um choupo, que inundava de verde a água do barranco, que deu o primeiro beijo. Subiu com muita dificuldade. Os eucaliptos não são como aqueles do seu tempo. Ah, o seu tempo, sempre relembrando o seu tempo. No passado havia eucaliptos que debruavam as estradas. Estradas quase todas de terra que o alcatrão demoraria ainda muitos anos a lá chegar. Toscos de tronco grosso, muita ramagem baixa, qual era o moço que com nove ou dez anos não lhe subia à copa? Estes não, são difíceis, troncos estreitos, todos iguais. Encostou uma velha escada e segurou-se aos ramos mais próximos. Frágeis, colocou um pé e só depois o outro, com muitas cautelas, ainda conseguiu subir mais duas pernadas mas faltavam-lhe as pernas. Olhou em redor. Do lado do nascer do sol, nem uma única azinheira, nem um único porco. A norte onde outrora era montado e as ovelhas pastavam livremente ou dormiam nas sombras, era agora deserto. Lá mais além, onde o olhar quase não alcança, a velha mina, fechada, só deixou ferro e enxofre e uma lagoa onde até é perigoso aproximar. Só os eucaliptos crescem. Hoje, o barranco está seco e o velho choupo secou também.

Publicado por Alves Fernandes às 03:47 PM | Comentários (1)