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junho 29, 2005
Como se fora Platão
Ela contou-me que ele chegou devagar. Primeiro mandava-lhe flores. Mais tarde convidava-a para passearem junto ao rio. Um dia deu-lhe a mão, que ela não recusou. Durante semanas conversaram sobre a natureza. Quando o crepúsculo se aproximava, contemplavam ambos o pôr-do-sol. Algumas noites falavam da lua, das montanhas que se viam. Tentavam lembrar os lagos, ela que recebia em casa uma revista americana, sabia-os quase todos de cor. Certa noite, ao aproximarem-se da porta de casa dela, ele apertou-a contra o peito e ficou a olhar-lhe os olhos. Quando ela me disse que teve desejos de o beijar, perguntei-lhe porque não o fez. Não me respondeu. Passaram três meses para que no cartão que acompanhava o ramo de flores viesse a esperada palavra. Amo-te. Nesse momento ele alojou-se no seu coração, para nunca mais de lá sair. Foi o último ramo de flores. Só o voltou a ver vários anos depois, quando uns fios de prata se misturavam na cabeça com o outrora castanho claro dos seus cabelos. Trocou a fotografia que estava no interior do peito, mas ele era o mesmo. Só a tinha interrompido, no seu relato, uma vez. Mas não resisti. Ainda o amas? E ela voltou a não me responder.
Publicado por Alves Fernandes às junho 29, 2005 10:43 PM
Comentários
O reencontro nem sempre faz reaparecer o antigo fulgor, são as marcas do tempo ou nada é eterno.
Um abraço. Augusto
Publicado por: augustoM em junho 30, 2005 05:33 PM