« Voltas da Vida | Entrada | Lobbies »

março 12, 2005

Carapaus

Os putos fazem cenas que não lembram a ninguém. Eu já fui puto e apesar da minha provecta idade recordo-me de histórias desses tempo como se fossem de hoje. Havia duas coisas que só de imaginar que a minha mãe iria fazer de almoço ou de jantar era birra certa. Sopa de feijão e, barra ou, peixe. Hoje, para mim, sopa que não tenha feijão não é sopa mas sim uma espécie ou, como eu costumo dizer, uma sopa fingida. E de peixe só não aprecio mesmo é o tal imperador. Oligarquias, nunca fui muito à bola com elas. Às vezes até levava porrada. Quer dizer, a minha mãe sacudia-me o pó das calças, no pensar dela uns açoites bem dados, eu fazia uma gritaria e a coitada ficava mais cansada de me as dar do que eu doloroso de as levar. Coisas de mãe. E podereis vós perguntar, talvez em uníssono, porque é que eu levava as tais palmadas no rabo. É simples a resposta. Eu que fazia tudo quanto eram caretas, que inventava todas as desculpas (cheguei a dizer que não podia comer peixe porque tinha uma unha que me doía no dedo mindinho), sempre que a tia Gracinda, que a sua alma esteja em descanso, fritava o chicharro cortadinho às postas, era verem-me entrar pela casa dela, comer posta atrás de posta, até quase o Zé e o Raul ficarem sem jantar. E quando a minha mãe me começava a dar as tais nalgadas, a avó Felismina, muito velhinha, fechava o punho e dizia: “deixa a criança, rapariga, tu é que mereces um soco”. Pois a tia Gracinda, apesar de me deixar comer tantas postas de chicharro quantas as que eu quisesse, fazia-me sempre a sacramental pergunta: “gostas de carapaus fritos de um dia para o outro?” E quando eu dizia que sim, o que aliás era sempre, ripostava: “então vem cá amanhã, que a tia vai fritá-los hoje”.
Nem sei porque é que me alonguei tanto, só para dizer que comi uns carapauzinhos fritos com um belo arroz de tomate hoje ao jantar. Mas amanhã, ao pequeno-almoço, é que eles me vão saber bem. Com café, de preferência feito na puta negra.

PS. A tia Gracinda era uma vizinha. Era minha tia emprestada. Era minha tia de coração. A avó Felismina era a minha terceira avó, mãe da tia Gracinda. Todos quantos, na escola ou na rua, que só tendo duas avós, me faziam chegar as lágrimas aos olhos de raiva por não acreditarem que eu tinha três avós, eram meus amigos. Mas eram invejosos. Digam lá se não eram? Eles queriam era ter uma avó Felismina como eu. Finalmente, só para esclarecer, a puta negra é aquela cafeteira, que por mais areada que fosse, nunca conseguia ficar brilhante, de tanto café fazer. Ainda não havia Scotch-Brite, nem tão pouco esfregões Bravo. Assim se vê como eu sou antigo. Sou mesmo do século passado.

Publicado por Alves Fernandes às março 12, 2005 12:06 AM

Comentários

bom dia pré (se é pré para @s amig@s!...)
ouvi muitas histórias parecidas com esta quando era pequena: contava-mas o meu pai (e ainda conta, vezes sem conta :)). estranho, por momentos parecia mesmo ele.
agora, carapauzinhos fritos ao pequeno almoço???

Publicado por: caxopa em março 13, 2005 11:41 AM

Caxopa, é uma delicia.

Publicado por: Alves Fernandes em março 13, 2005 11:43 AM

Ele há coincidências. Ora dá cá mais cinco porque eram hoje umas dez da manhã e estava eu a comer os carapauzinhos fritos que sobraram do almoço de ontem. :))) Confirmo, uma delícia. ;)

Publicado por: duende em março 13, 2005 02:09 PM

E esses carapausinhos fritos de um dia para o outro cobertos com molho de escabeche e acompanhados de uma valente açorda de tomate?
Ai que até me sinto tonta da fomeca!
Dá aí um púcaro de café a ver se me levanta a tensão.
pfiififififif

Publicado por: LC em março 13, 2005 10:41 PM

e o que eu adoro carapaus fritos... nham nham...
mas pre, do século passado somos todos (os que sabem ler e escrever, pelo menos).
beijinhos

Publicado por: sonia em março 14, 2005 12:35 AM

Desculpa lá, mas a Ti Gracinda e a Vó Felismina tambem eram minhas.

Toma, bem feita...

Publicado por: Carlos F. em março 14, 2005 11:47 AM