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janeiro 12, 2005

Do que é que nos queixamos?

Todos os dias assistimos a um arraial de queixas dos portugueses. Manifestamo-nos porque queremos que a nossa cidade suba a Concelho. Fazemos vigílias à porta da fábrica porque o patrão fugiu e temos medo que nos roubem as máquinas. Não somos colocados nas escolas ou somo-lo tardiamente e mesmo assim mal colocados. E, porque os nossos professores não são colocados, queixamo-nos porque não temos aulas ou os nossos filhos não as têm. Fomos despedidos colectivamente ou sem justa causa ou terminamos o curso e não temos emprego. Se temos mais de 40 anos não nos podemos reformar porque somos muito novos nem nos podemos empregar porque somos muito velhos. Queixamo-nos à polícia porque fomos vítima de assalto e desatamos a barafustar porque mesmo aqui à porta há um super-mercado de droga. Estamos há mais de 2 anos numa lista de espera para uma operação ou há 4 meses para uma consulta de especialidade. Somos dois milhões no limiar da pobreza, recebemos pensões de miséria e o nosso salário médio é metade do país mais próximo da união europeia. Reclamamos porque o nosso primeiro-ministro emprestou os Açores para a cimeira da guerra e somos até, vejam bem, contra a guerra. Não queremos incineração nem co-incineração de resíduos tóxicos e por isso saímos à rua em Setúbal e em Coimbra. Achamos que não se protege a floresta, não se limpa, não de dotam os bombeiros nem com planos, nem com meios suficientes para o combate aos incêndios. Barafustamos porque um ministro faz uma viagem em avião privado. Queixamo-nos da má construção das vias rodoviárias que matam, por ano, um número inusitado de pessoas. Estamos contra o congelamento dos salários enquanto a inflação não nos perdoa todos os anos. Não temos uma verdadeira política de educação, de saúde, de ambiente, de finanças públicas, de justiça e compramos helicópteros com defeito. A nossa frota pesqueira já era e compramos nas lotas de Vigo ou outras cidades a melhor preço. Barafustamos contra a construção desenfreada na costa algarvia, contra a especulação imobiliária sem escrúpulos, contra as violações dos PDMs, contra a corrupção na GNR em benefício dos construtores civis. Achamos que os ricos e poderosos não são julgados em igualdade de circunstâncias com os restantes cidadãos. Há até quem diga que há fugas ao fisco, fraudes fiscais, protecções aos off-shores. Manifestamo-nos contra o Código do Trabalho e levantamos bandeiras negras contra a fome.

E no entanto, nos últimos 30 anos, mais de 85%, sim mais de 85% dos votos válidos dos portugueses meteram no governo, alternadamente ou em conjunto, o PSD (9 governos), o PS (5 governos) e o CDS (6 governos). São estes partidos e os seus 85% de apoiantes que têm mantido o país neste estado de coisas. E no entanto os portugueses queixam-se. Mas queixam-se de quê?

Publicado por Alves Fernandes às janeiro 12, 2005 10:36 PM

Comentários

fizeste-me lembrar aquila pergunta que se faz quando as coisas começam a correr mal pouco depois das eleições:"queixam-se de quê? não os sentaram lá?"...o problema, na minha opinião pessoal, é que, apesar existirem alternativas aos partidos que referiste, as pessoas só perspectivam o ps e o psd como potenciais vencedores.
Imaginemos o partido x, que é alternativo ao ps, cds e psd. Ora, o partido x até apresenta umas propostas interessantes e umas ideias que o sr. Manuel considera correctas. Contudo, ao chegar às eleições, o sr Manuel reconsidera: "se eu votar no x se calhar sou só mais um número que pouca diferença fará, porque a verdadeira disputa é entre o ps e o psd". Como o sr Manuel é, suponhamos, de esquerda, junta-se aos partidários do psd na tentativa de uma maioria absoluta.
Quantos existem iguais ao sr manuel? Eu não sei...mas se todos eles escolhessem o partido em que realmente se identificam (seja qual for) podiam aumentar a importância deste. E se calhar não conseguiam resultados significativos logo no primeiro ano, mas quem diz que não o conseguiriam com o decorrer do tempo?

Publicado por: caxopa em janeiro 13, 2005 01:26 PM

Sabes, acho que o que Portugal precisa é de novas ideias, novos pensamentos, novos políticos. Uma nova geração. Mas não é facil de se encontrar... E os portugueses, eternos insatisfeitos, tem razão em se manifestar. Afinal, temos ou não direito a expressão? :)

Publicado por: Primula Bramble em janeiro 13, 2005 01:46 PM

Caxopa, é isso mesmo. A teoria do voto útil é cada vez mais inútil.

Publicado por: Alves Fernandes em janeiro 13, 2005 02:58 PM

Creio que não existem apenas queixas,existe uma incapacidade de tomar inciativas e resolver os problemas sem ter um "pai" a tomar conta.
Quanto aos governos o melhor era esqueçer.Embora reprovavel....não voto,não tenho partido,se me deixassem não tinha BI,nem toda a serie de cartões que temos de ter.Pagava os impostos a mim e governava a minha casa....bom não era!Anarquia total ,cada um que se governe como possa:))
estou a brincar, não ligue:)Ando farta de ouvir queixas de pessoas que não trabalham e ver outros a roubar o resultado dos poucos que o fazem.

Publicado por: annie hall em janeiro 13, 2005 03:01 PM

Primula, talvez eu não me tivesse feito entender ou talvez você não tivesse entendido. Obviamente, quer a liberdade de expressão quer o direito à indignação, eu defendo-os como direitos inalienáveis. Quando falo em queixar de quê é por achar que nos queixamos de nós próprios. E isso eu admito como um acto de arrependimento. Mas cair em 30 anos sempre na mesma esparrela não acha que é burrice a mais?

Publicado por: Alves Fernandes em janeiro 13, 2005 04:22 PM

O problema é a direita alternar-se a ela própria no poder. A falta de uma oposição convincente, não permite o aparecimento de outra força estranha à direita.
Um povo que esquece todas as amarguras da vida, em troca de um desafio de futebol, não merece mais do que tem. As eleições para eles são meras confrontações clubistas.
Um abraço. Augusto

Publicado por: misswyoming em janeiro 13, 2005 09:20 PM

Bem, amigo! Afino pelo teu diapasão. Este sistema de "carrocel" ( ora agora andas tu, ora agora ando eu, ora agora andas tu mais eu )...JÁ ERA.

Um abração do
Zecatelhado

Publicado por: zecatelhado em janeiro 14, 2005 11:01 PM