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novembro 26, 2004
A boca
Bocejou, mas desta vez achou anormal. Tinha dormido doze horas consecutivas. Deitou-se sobre o sofá, sintonizou o canal da TV onde iria passar o jogo de futebol da sua equipa, olhou para o relógio, ainda faltavam quinze minutos e adormeceu. Não deu pela chegada da mulher, apenas tinha uma vaga ideia dos cheiros que emanavam algures da cozinha. Bocejou de novo e continuou a não achar normal. Desta vez bocejou com mais intensidade. Afinal de contas não tinha seguido o cheiro do caril que imaginava, ou sonhava, saía de enormes tachos de barro, caldeirões pendurados na chaminé, também ela exorbitante. À volta na cozinha enorme do palácio, duendes com colheres de pau gigantes, bem maiores que eles, subiam escadotes para mexer o caldo. E riam, riam muito. O fogo no meio da cozinha, que agora já lhe parecia no meio da floresta servia também de aquecimento à sala onde estava deitado. Nem uma mantinha de lã, artesanal, lhe tinham posto a cobrir o peito. Um arrepio de frio era dissipado, pela fogueira, onde o caldeirão cozinhava o cheiroso manjar. Ao fundo os duendes jogavam futebol. Pareceu-lhe ouvir alguém gritar golo, mas nem abriu os olhos. Tinha sono, mais que fome, mais que fome de futebol. E no entanto após todas aquelas horas, ainda bocejava. E bocejou de novo. Sentiu fome e bocejou de novo. Abriu a boca exageradamente e comeu-se.
Publicado por Alves Fernandes às novembro 26, 2004 02:52 PM
Comentários
sabes quem me fizeste lembrar?
o Mário Henrique-Leiria! e os Contos do Gin Tónico!
ah... e partilho essa sonolência a ver futebol...
aliás, eu hoje quero esquecer que sei sequer o que isso é!!! (tive nova afronta online)
beijos. e bom fim de semana.
Publicado por: aNa em novembro 26, 2004 05:42 PM
aNa, experimenta ler http://livrodasartes.blogspot.com/
depois diz-me se gostaste.
Publicado por: Alves Fernandes em novembro 26, 2004 06:39 PM